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Destreinamento na corrida: o que acontece com seu corpo quando você para de treinar (e como minimizar as perdas)

Parar de treinar por alguns dias parece inofensivo. Mas quando essa pausa se estende, seja por lesão, férias, transição da periodização ou falta de rotina, o corpo do corredor começa a perder adaptações importantes. Esse processo tem nome: destreinamento (detraining). E a ciência já mostrou que ele acontece mais rápido do que muita gente imagina.


Neste artigo, vamos destrinchar o que a literatura científica recente mostra sobre o destreinamento em atletas de endurance e, principalmente, o que você pode fazer para reduzir os prejuízos e voltar mais forte.



O que é destreinamento na corrida?


Destreinamento é a reversão parcial ou total das adaptações fisiológicas adquiridas com o treino, causada pela redução significativa ou interrupção do estímulo físico. Diferente do taper (redução planejada de volume mantendo intensidade), o destreinamento geralmente envolve queda acentuada de carga, o que leva à perda de desempenho.


A literatura costuma dividir o destreinamento em:


  • Curto prazo: até ~4 semanas

  • Longo prazo: acima de 4 semanas


Essa divisão é importante porque os efeitos e a velocidade das perdas são diferentes.


O impacto no sistema cardiorrespiratório


Um dos primeiros sistemas a “sentir” a pausa é o cardiovascular.


  • VO₂máx: estudos mostram que ele pode começar a cair já nas primeiras 2 semanas sem treino.

  • Volume sanguíneo e plasmático: diminuem rapidamente, prejudicando o transporte de oxigênio.

  • Débito cardíaco: reduzido, especialmente durante exercícios em pé, comuns na corrida.

  • Coração de atleta: adaptações estruturais, como aumento do ventrículo esquerdo, tendem a regredir com o tempo.


Na prática: o corredor se sente mais cansado para o mesmo ritmo, mesmo que o peso corporal e a motivação não tenham mudado.


Alterações metabólicas: menos eficiência, mais sofrimento

O destreinamento não afeta apenas o “fôlego”, mas também como o corpo usa energia.


  • Menor uso de gordura como combustível e maior dependência de carboidratos

  • Redução da atividade de enzimas mitocondriais

  • Queda nos estoques de glicogênio muscular

  • Diminuição da sensibilidade à insulina

  • Aumento do lactato para a mesma intensidade de exercício


Resultado?👉 Menor tolerância ao esforço, queda do limiar anaeróbico e sensação de “pernas pesadas” mais cedo.


O que acontece com os músculos do corredor?


Mesmo em atletas treinados, a inatividade provoca:


  • Redução da capacidade de extração de oxigênio pelo músculo

  • Queda da densidade de transportadores de glicose (GLUT-4)

  • Atrofia muscular progressiva

  • Redução da síntese proteica

  • Perda de eficiência neuromuscular


Esses fatores ajudam a explicar por que, após uma pausa, o retorno ao ritmo anterior não é imediato, mesmo quando o fôlego parece voltar mais rápido.


⏱️ Quanto tempo parado é “seguro”?



Não existe um número mágico. Mas a ciência é clara em um ponto: as perdas começam cedo.


  • 7 a 14 dias: já há alterações cardiovasculares mensuráveis

  • 3 a 4 semanas: quedas relevantes de VO₂máx e eficiência metabólica

  • 4 semanas: regressões estruturais e funcionais mais profundas


A boa notícia? Nem toda pausa precisa virar destreinamento.


Como minimizar o destreinamento na corrida?


A literatura mostra que manter pequenos estímulos de intensidade, mesmo com volume reduzido, ajuda a preservar adaptações importantes.


Algumas estratégias eficazes:


  • Reduzir volume, mas manter 1–2 sessões semanais com intensidade moderada/alta

  • Priorizar treino de força para preservar massa muscular e função neuromuscular

  • Usar atividades cruzadas (bike, natação) quando o impacto não é possível

  • Planejar bem os períodos de transição entre ciclos de treino


Ou seja: parar totalmente quase nunca é a melhor estratégia.


O papel do treino de força no retorno e na prevenção


O treino de força aparece como um dos principais aliados para:


  • Reduzir perdas musculares durante pausas

  • Acelerar o retorno à corrida

  • Melhorar economia de corrida

  • Diminuir risco de lesão na retomada


Corredores que mantêm força durante períodos de menor volume aeróbico tendem a voltar mais rápido e com menos desconforto.


📌 Conclusão


O destreinamento é real, rápido e impacta múltiplos sistemas do corpo do corredor. Mas ele não é inevitável.


Com planejamento, manutenção mínima de estímulos e inclusão estratégica do treino de força, é possível atravessar períodos de pausa, lesão ou transição preservando performance e saúde.


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